BRINCADEIRAS INFANTIS

Quando você olha uma criança com os olhos grudados em frente à TV manejando um PlayStation ou Xbox pode não imaginar que a infância já foi mais perigosa (ou divertida, dirão alguns). Desde as primeiras brincadeiras de correr, como esconde-esconde, que perduraram por décadas até os robôs e óculos de realidade virtual dos dias de hoje, a tecnologia sempre esteve aliado a uma experiência mais prazerosa para os pequenos.
Com o tempo, a preocupação crescente com a segurança mudou a dinâmica das brincadeiras e o maior acesso às tecnologias de ponta trouxe inovações mais rapidamente. Hoje jogos em rede como Minecraft são febre e óculos de realidade virtual como o OculusRift são sonhos de consumo. Mas alguns clássicos resistem aos anos e ainda fazem sucesso entre os pequenos, dos jogos de tabuleiro às bolas de gude.
Fizemos um apanhado histórico da evolução dos . Veja abaixo:
Foto: Repositório/UFSC/Reprodução.
Foto: Repositório/UFSC/Reprodução.
Da peteca dos índios à amarelinha (Pós-chegada dos portugueses até 1880)
Segundo relatos registrados em diários de viagens dos portugueses, os índios que viviam por aqui antes da chegada dos portugueses já praticavam um jogo que consistia em arremessar uma trouxa de folhas cheia de pedras que eram amarradas em uma espiga de milho. Chamavam de Pe’teka, que quer dizer “bater” em tupi.
Foto: Cuny.Edu.
Foto: Cuny.Edu.

A influência negra nas brincadeiras: pião e papagaio
Segundo o pesquisador Câmara Cascudo, a criança africana filha de escravos sofreu influência em suas brincadeiras com a introdução de elementos europeus aos jogos e materiais herdados de sua matriz africana. Já Gilberto Freyre lembrava que grande parte das brincadeiras entre meninos brancos e negros reproduziam a dominação do patriarcalismo e escravidão. Mas alguns jogos perduraram às gerações seguintes, como o pião, a pipa (ou papagaio, como se chama aqui no Nordeste) e o beliscão.
Segundo Freyre, até essas brincadeiras aparentemente inocentes ajudavam a ilustrar o sadismo dos pequenos filhos de donos de engenho. Ele cita as práticas de “lascar-se o pião” ou de “comer-se o papagaio” do outro. “Papagaio alheio é destruído por meio da lasca, isto é, lâmina de vidro ou caco de garrafa, oculto nas tiras de pano de rabo”, escreveu. Na minha infância, vi muitos garotos se machucarem com o que chamávamos de “cerol”, que era uma mistura maluca de cola branca, cacos de vidro triturados até virarem pó e ferrugem.
Foto: Reprodução/YouTube.
Foto: Reprodução/YouTube.
Portugueses no Nordeste: badocada e reizinhos
A influência ibérica e moura no Nordeste também chegou às brincadeiras das crianças. Os jogos de reis e rainhas são efeito direto dessa presença por aqui. O jogo da amarelinha, pedrinhas e cantigas de rodas são importações da Europa. O badoque, popular primeiro no Sertão nordestino, é árabe. Foi usado como instrumento de guerra na Espanha e Portugal até a criação da pólvora e ganhou uma versão “menos” inofensiva para crianças. O “bococ” ou “baducca” tem duas cordas bem esticadas separadas por dois pedacinhos de madeira e no meio há uma rede onde são colocados os projéteis, em geral, pedras. Bastante parecido, o estilingue era quase igual, mas tinha uma base de madeira em formato de “Y”. Ambos eram usados para abater passarinhos ou atirar pedras uns nos outros. A pesquisadora Elizabeth Lannes Bernardes, da Universidade Federal de Uberlândia (MG), lembrou que esses brinquedos também serviam como processo de iniciação dos meninos à vida adulta.
Foto: DiarioInsano.com.
Foto: DiarioInsano.com.
Bola, estrela de sempre
A bola é muito antiga: há relatos que os japoneses e chineses já se divertiam com bolas de diversos materiais. Os gregos e romanos utilizavam bexiga de boi. Mas foi a bola dos ingleses que ficou famosa no Brasil. Ela chegou por aqui em 1894, trazida pelo inglês Charles Miller. Mas o nosso país tem a primazia de ter inventado a bola branca, em 1935. O inventor foi Joaquim Simão, que teve a ideia para ajudar os peladeiros que jogavam à noite.
Foto: MaisEstudo.com.br/Reprodução.
Foto: MaisEstudo.com.br/Reprodução.
Primeira metade do século: simbora pra rua
Na primeira metade do século 20 o mais comum era ir para a rua brincar. Por isso se popularizaram brincadeiras coletivas, onde era necessário um grande número de pessoas para que ficasse divertido. Pesquisadores apontam como sendo dessa época jogos como “pula-carniça”, que consistia em pular sobre outras crianças agachadas. Há versões violentas. Na minha infância, nos anos 1990, alguns garotos inventavam a chamada “garra de gavião”, onde pulavam arranhando as costas do colega com força.
Vale também registrar a chegada ao Brasil do “Queimado”, ou queimada, que é uma adaptação do prisonball, criado na Colômbia e popularizado nos EUA. Nele, quem levar uma bolada fica em uma área delimitada, que chamávamos aqui no Nordeste de “cemitério” (prison, nos EUA, daí o outro nome do jogo, prisonball). O objetivo é fazer o maior número de prisioneiros em cada campo. Era comum muitas crianças saírem seriamente machucadas, já que as bolas podiam causar hematomas dependendo do ângulo usado no arremeso. A partida era mista entre meninos e meninas, mas em alguns bairros e regiões, queimado era tido como “jogo de menina”.
Outras brincadeiras de rua, que se popularizaram na primeira metade do século passado e foram bastante difundidos até os anos 80-90: barra-bandeira, pega-esconde, pega-pega, pega-congelou.
Foto: AnosIncríveisBlog.com.
Foto: AnosIncríveisBlog.com.
Anos 1970 – 1980: bolas de gude e o colecionismo
As bolas de gude, também chamadas de bilucas, cabiçulinhas ou bolita, já existiam desde a Roma antiga, com materiais como ônux, vidro, aço e argila. Pintores renascentistas já retratavam crianças brincando com as bolinhas. Por aqui ficaram famosas nos anos 1970, mas foram introduzidas bem antes, pelos portugueses. O nome “de gude”, faz referência às pedras lisas dos leitos dos rios. No Brasil elas impulsionaram o colecionismo, base do comércio direcionado para crianças. As pedras até hoje são em sua maioria feitas de vidro. Algumas de ferro ficaram conhecidas como “ferranças”.
Outros produtos que impulsionaram o consumo no Brasil através do fomento às coleções foram o Lego, criado na Dinamarca em 1949; o Playmobil, nascidos na Alemanha em 1974, o futebol de Gamão, criado pelo francês Geraldo Décourt, em 1930, entre outros
Foi também nos anos 70 que ficaram famosos os jogos de tabuleiro, como War, Jogo da Vida, Bom de Bola, Fort Apache, além dos clássicos até hoje imbatíveis Ferrorarama e Autorama. Esses dois últimos eram caríssimos e sonhos de consumo da maior parte das crianças. Os RPGs, como Dungeons & Dragons, também surgiram no final dos anos 1970, mas só se popularizaram no Brasil mais tarde.
Foto: blogdolucianolpm.blogspot.com.
Foto: blogdolucianolpm.blogspot.com.
Anos 1980 e a inovação técnica
Diversas invenções introduzidas desde os anos 1960 chegaram aos anos 1980 como uma explosão consumistas em diversos países do Ocidente. Para muitos, foi uma das melhores épocas para ser criança pelo elevado número de opções. Enxergados pelas marcas como um dos consumidores mais criativos foram criados pelas empresas. Entre eles estão a mola colorida, o bate-bate, amoeba, aquaplay, o Genius. Nos anos 1990 chegaram os Tazos, febre introduzida pela ElmaChips, o Pega-tazos, os tamagochis, pirocóptero, iôiôs da Coca-Cola, os geloucos (também da Coca), pega-varetas. O cubo mágico, criado pelo húngaro Ernő Rubik em 1974, se tornou um clássico e ficou famosa nessa época.
Divulgação.
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Bonecos e bonecas todo mundo teve um
Todo mundo teve uma memória afetiva relacionada a um determinado boneco quando criança, mesmo que não tivesse tido um. Nos anos 1980 esses brinquedos eram bastante queridos pelas crianças e muitos ganharam diversas versões. Para os meninos, os anos 1980 significaram a era dos Comandos em Ação, colecionáveis de guerra com centenas de acessórios. Para as meninas, as Barbies e bonecas-bebês se popularizaram nessa fase. A boneca da Xuxa, versão brazuca, também era bastante querida. Para eles e elas tinha o famigerado Fofão, lançado pela Estrela e alvo de uma lenda viva de que guardava uma faca dentro de seu estofado – era mentira, claro. Se tratava da base de sustentação do brinquedo, feita de plástico.
Nos anos 1990, para os meninos a melhor coisa do mundo era ter algum boneco dos Cavaleiros do Zodíaco, da Bandai, baseado no desenho animado homônimo e que vinha com uma armadura montável. Para as meninas teve a Susi, criada em 1966 e que fez seu grande retorno nos anos 1990 com diversas profissões. Outros bonecos memoráveis: Megazord, He-Man, Murphy Monkey, Baby (da Família Dinossauros), Moranguinho, Fofolete e Lango-Lango.
Divulgação.
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A era dos 
O Atari foi um dos videogames mais populares do Brasil, mas a febre mesmo veio com o Nintendinho, que chegou no início dos anos 1990. Outros consoles que ficaram populares foram os da Sega, como o Master System e o Mega-Drive. Na evolução dos gráficos, o PlayStation 1, da Sony fez sucesso rápido, depois do fracasso que foram lançamentos como Sega Saturn, Neo Geo, entre outros.
Fizemos uma reportagem sobre a evolução dos games há algum tempo. Mas o importante é dizer que os diversos consoles encontraram seu público aqui no Brasil, com opções que se equiparavam, a exemplo do clássico embate Super-Nintendo Vs Mega-Drive. Nos anos 2000, a Nintendo perdeu força para as concorrentes Sony e Microsoft, que até hoje dominam o mercado com o PlayStation e o Xbox, respectivamente.
Foto: Divulgação.
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Daqui pro futuro: robôs e realidade virtual
Bonecos, coleções e jogos de tabuleiros ainda fazem sucesso entre as crianças, mas a inovação tecnológica cria experiências ainda mais sofisticadas e instigantes. Hoje, podemos citar ao menos duas febres entre os pequenos e ambas são eletrônicas: os jogos Minecraft e Angry Birds. Há diversos outros produtos e grande parte deles são sazonais, ligados a desenhos animados.
Há ainda um movimento que quer retomar o uso dos brinquedos educativos, feitos de madeira e com estímulos à sustentabilidade, como a marca Panda e a australiana SAMS Handcrafts. Outra tendência é estimular o contato dos pequenos com o folclore nacional e referências da cultura brasileira e que levem em consideração a sensibilidade e inteligência das crianças. Nesta seara se destacam atividades como do grupo Palavra Cantada e os pernambucanos Bita e Seus Amigos, que disponibilizam aplicativos para Android e iOS para os pimpolhos.
Além dos tablets e smartphones, os meninos e meninas já se preparam para um novo estágio, com a chegada de óculos de realidade virtual, a exemplo do Oculus Rift, sucesso nesta última Brasil Game Show.

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